INTERFERÊNCIAS DA DISGRAFIA NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM
A disgrafia constitui uma dificuldade relacionada com a expressão escrita que pode repercutir-se no desempenho escolar e na participação dos alunos nas actividades pedagógicas. Considerando a importância da escrita no processo de ensino e aprendizagem, este artigo aborda as interferências das dificuldades de escrita no contexto escolar, com particular atenção aos alunos da 5.ª classe. O estudo teve como objectivo compreender as interferências da disgrafia no processo de ensino e aprendizagem, identificando as principais dificuldades apresentadas pelos alunos e as estratégias pedagógicas utilizadas pelos professores. Adoptou-se uma abordagem qualitativa, de carácter descritivo e interpretativo. A investigação foi realizada no Complexo Escolar Católico n.º 3064 São Francisco de Assis, Município do Hoji-Ya-Henda, Província de Luanda, durante o ano lectivo de 2025–2026, envolvendo 10 alunos da 5.ª classe e 2 professores. A recolha de dados foi realizada através de entrevistas semiestruturadas, observação das actividades de escrita e análise das produções escritas dos alunos. Os resultados permitiram concluir que as dificuldades relacionadas com a escrita podem interferir no ritmo de realização das tarefas, na legibilidade, na cópia, na organização gráfica e na expressão escrita dos conhecimentos. Evidenciou-se, ainda, a importância do acompanhamento individual, da diferenciação pedagógica e da adaptação das actividades às necessidades dos alunos. Palavras-chave: disgrafia; escrita; ensino e aprendizagem; dificuldades de aprendizagem; intervenção pedagógica.Abstract Abstract Dysgraphia is a difficulty related to written expression that may affect students’ academic performance and participation in educational activities. Considering the importance of writing in the teaching and learning process, this article addresses the effects of writing difficulties in the school context, with particular attention to fifth-grade students. The study aimed to understand the effects of dysgraphia on the teaching and learning process by identifying the main difficulties experienced by students and the pedagogical strategies used by teachers. A qualitative, descriptive and interpretive approach was adopted. The research was conducted at Complexo Escolar Católico No. 3064 São Francisco de Assis, in the municipality of Hoji-Ya-Henda, Luanda Province, during the 2025–2026 school year, involving 10 fifth-grade students and 2 teachers. Data were collected through semi-structured interviews, observation of writing activities, and analysis of students’ written work. The results led to the conclusion that writing difficulties may affect the pace of task completion, legibility, copying, graphic organisation, and the written expression of knowledge. The study also highlighted the importance of individual support, differentiated instruction, and adapting activities to students’ needs. Keywords: dysgraphia; writing; teaching and learning; learning difficulties; pedagogical intervention.
Introdução
A escrita constitui uma das competências fundamentais desenvolvidas ao longo do percurso escolar, assumindo um papel relevante no processo de ensino e aprendizagem. Por meio da escrita, o aluno regista informações, comunica ideias, organiza o pensamento, realiza actividades académicas e demonstra conhecimentos adquiridos. Neste sentido, o domínio da escrita não representa apenas uma competência linguística, mas também um instrumento essencial para a participação do aluno nas diferentes situações de aprendizagem.
Apesar da sua importância, o processo de aquisição e desenvolvimento da escrita pode ser acompanhado por diferentes dificuldades. Algumas crianças apresentam limitações persistentes na realização de actividades que exigem produção escrita, podendo manifestar lentidão, dificuldades na organização gráfica, problemas de legibilidade, irregularidade no tamanho e no espaçamento das letras e palavras, entre outras características. Quando estas dificuldades se tornam frequentes, podem interferir na realização das tarefas escolares e na forma como o aluno demonstra os conhecimentos adquiridos.
Entre as dificuldades associadas à escrita encontra-se a disgrafia. No contexto educativo, esta problemática merece atenção por poder afectar o desempenho do aluno em actividades que dependem directamente da produção escrita. A dificuldade não deve, contudo, ser interpretada automaticamente como falta de capacidade intelectual ou incapacidade de aprendizagem. É necessário compreender as características individuais do aluno e analisar de que forma a dificuldade se manifesta no contexto concreto da sala de aula.
A problemática assume particular relevância nas classes iniciais, período em que as crianças consolidam competências fundamentais de leitura e escrita. Nesta fase, dificuldades persistentes podem condicionar a realização de actividades como copiar conteúdos do quadro, responder a questões por escrito, produzir textos, realizar exercícios e concluir tarefas dentro do tempo estabelecido. Consequentemente, o acompanhamento adequado torna-se importante para evitar que a dificuldade de escrita limite a participação do aluno nas experiências de aprendizagem.
Neste processo, o professor desempenha um papel fundamental. Para além de transmitir conhecimentos, cabe-lhe observar o desempenho dos alunos, identificar dificuldades, acompanhar a evolução de cada criança e procurar estratégias pedagógicas que favoreçam a sua aprendizagem. O recurso a actividades diferenciadas, acompanhamento individual, exercícios específicos e adaptação do tempo de realização das tarefas pode contribuir para responder às necessidades identificadas.
A escola possui igualmente responsabilidade na criação de condições que favoreçam uma educação inclusiva e atenta às diferenças individuais. O reconhecimento das dificuldades de escrita e a adopção de práticas pedagógicas adequadas podem contribuir para que os alunos tenham oportunidades de participar nas actividades escolares e demonstrar os seus conhecimentos de diferentes formas.
É neste contexto que se insere o presente artigo, que aborda as interferências da disgrafia no processo de ensino e aprendizagem. O estudo foi realizado no Complexo Escolar Católico n.º 3064 São Francisco de Assis, localizado no Município do Hoji-Ya-Henda, Província de Luanda, durante o ano lectivo de 2025–2026, envolvendo alunos da 5.ª classe e professores.
A escolha desta problemática decorre da necessidade de compreender como as dificuldades relacionadas com a escrita se manifestam no contexto escolar e de que modo podem interferir na realização das actividades de aprendizagem. A investigação procura, igualmente, conhecer a percepção dos professores e identificar as estratégias pedagógicas utilizadas para apoiar os alunos que apresentam dificuldades na produção escrita.
Assim, formulou-se a seguinte questão de investigação: Quais são as interferências da disgrafia no processo de ensino e aprendizagem?
Partindo desta questão, o estudo teve como objectivo geral compreender as interferências da disgrafia no processo de ensino e aprendizagem.
Como objectivos específicos, procurou-se:
identificar as principais dificuldades relacionadas com a escrita apresentadas pelos alunos;
analisar as interferências das dificuldades de escrita na realização das actividades escolares;
conhecer a percepção dos professores sobre as dificuldades de escrita dos alunos;
identificar as estratégias pedagógicas utilizadas pelos professores para apoiar os alunos com dificuldades na escrita.
A relevância deste estudo reside na possibilidade de contribuir para uma melhor compreensão das dificuldades relacionadas com a produção escrita no contexto escolar, chamando a atenção para a necessidade de práticas pedagógicas diferenciadas e adequadas às características individuais dos alunos.
2.Fundamentação Teórica
2.1. A escrita no processo de ensino e aprendizagem
A escrita constitui uma competência fundamental no desenvolvimento escolar da criança, assumindo funções relacionadas com a comunicação, o registo de informações, a organização do pensamento e a expressão dos conhecimentos adquiridos. No contexto educativo, o domínio da escrita é particularmente importante porque diversas actividades de aprendizagem e formas de avaliação dependem da capacidade do aluno para produzir e organizar informações por escrito.
A aprendizagem da escrita é um processo progressivo que envolve diferentes competências. Para além do conhecimento dos símbolos gráficos, exige coordenação motora, organização espacial, atenção, percepção visual e capacidade de estabelecer relações entre os elementos que constituem a linguagem escrita. Por essa razão, dificuldades numa dessas dimensões podem repercutir-se na realização das actividades escolares.
José e Coelho (2000) salientam que os problemas de aprendizagem podem manifestar-se de diferentes formas e interferir no desempenho escolar, sendo necessário considerar as características individuais do aluno. Nesta perspectiva, a dificuldade apresentada numa determinada área não deve ser automaticamente interpretada como uma incapacidade global de aprendizagem.
A escola desempenha, por isso, um papel relevante no acompanhamento do desenvolvimento da escrita. A observação sistemática das actividades permite ao professor identificar dificuldades, acompanhar a evolução do aluno e procurar estratégias que favoreçam a aquisição das competências necessárias.
2.2. Dificuldades de aprendizagem
As dificuldades de aprendizagem constituem uma problemática que pode manifestar-se em diferentes áreas do desempenho escolar. Podem estar relacionadas com a leitura, escrita, expressão oral, cálculo ou outras competências necessárias à aprendizagem. A sua manifestação pode variar de acordo com as características individuais do aluno e com as condições em que ocorre o processo educativo.
Ciasca (2003) destaca a importância de compreender os distúrbios específicos de aprendizagem a partir das suas características particulares. Esta perspectiva permite evitar interpretações generalizadas segundo as quais uma dificuldade numa determinada competência significaria necessariamente uma limitação nas restantes áreas do desenvolvimento.
No contexto escolar, a identificação de uma dificuldade deve ser acompanhada por uma análise cuidadosa das condições em que ela ocorre. O professor deve considerar a frequência da dificuldade, as situações em que se manifesta, a evolução do aluno e as estratégias que podem favorecer o seu desempenho.
É igualmente importante distinguir entre uma dificuldade observada pelo professor e um diagnóstico especializado. A identificação pedagógica de manifestações de dificuldade na escrita pode justificar acompanhamento e estratégias diferenciadas, mas não substitui uma avaliação clínica ou multidisciplinar quando esta se mostrar necessária.
2.3. Conceito de disgrafia
A disgrafia é frequentemente associada a dificuldades persistentes relacionadas com a produção escrita. Essas dificuldades podem manifestar-se através de problemas de legibilidade, organização gráfica, tamanho e forma das letras, espaçamento, ritmo e coordenação dos movimentos necessários à escrita.
Almeida et al. (2010) abordam dificuldades relacionadas com a escrita e apresentam propostas de intervenção destinadas ao acompanhamento de crianças que apresentam problemas nessa área. A intervenção deve considerar as características específicas de cada aluno e procurar desenvolver progressivamente as competências necessárias para a realização das actividades escritas.
No entanto, é necessário ter cautela na utilização do conceito de disgrafia em contexto escolar. A observação de uma escrita irregular, lenta ou pouco legível não permite, por si só, estabelecer um diagnóstico. Para efeitos deste estudo, o termo é utilizado para designar a problemática relacionada com dificuldades persistentes de produção escrita observadas no contexto educativo.
Esta distinção é importante porque permite evitar a estigmatização do aluno. Uma criança que apresenta dificuldades na escrita não deve ser definida exclusivamente pela sua dificuldade. O foco da intervenção pedagógica deve estar nas suas necessidades, potencialidades e possibilidades de desenvolvimento.
2.4. Manifestações das dificuldades de escrita
As dificuldades relacionadas com a escrita podem apresentar diferentes manifestações. Entre as mais frequentemente observadas encontram-se a lentidão na execução das tarefas, a irregularidade no tamanho das letras, a dificuldade no espaçamento entre palavras, a baixa legibilidade, problemas na organização da escrita e dificuldades na cópia de informações.
A lentidão assume particular importância no contexto escolar, uma vez que muitas actividades são realizadas dentro de períodos de tempo previamente definidos. Um aluno que necessita de mais tempo para escrever pode não conseguir concluir uma actividade, mesmo quando compreende o conteúdo que está a ser trabalhado.
A legibilidade constitui igualmente um aspecto relevante. Quando a produção escrita apresenta dificuldades de leitura, o aluno pode encontrar obstáculos na comunicação das suas ideias e o professor pode ter dificuldades em interpretar aquilo que foi produzido.
As dificuldades na cópia também podem afectar o desempenho escolar, sobretudo em contextos em que a transcrição do quadro constitui uma prática frequente. Neste caso, o tempo utilizado para copiar pode reduzir o tempo disponível para acompanhar a explicação do professor ou realizar outras actividades.
Deste modo, as dificuldades de escrita não devem ser analisadas apenas a partir da aparência gráfica da produção. É necessário considerar as suas repercussões no conjunto das actividades realizadas pelo aluno.
2.5. Interferências da disgrafia no processo de ensino e aprendizagem
As dificuldades relacionadas com a produção escrita podem interferir em diferentes momentos do processo de ensino e aprendizagem. Uma das principais repercussões está relacionada com a realização das tarefas. O aluno pode necessitar de mais tempo para copiar, responder a questões, produzir textos ou realizar exercícios escritos.
Outra possível interferência está relacionada com a demonstração dos conhecimentos. Em determinadas situações, o aluno pode compreender oralmente um conteúdo, mas encontrar dificuldades para expressá-lo por escrito. Nestas circunstâncias, o desempenho escrito pode não representar integralmente aquilo que o aluno compreende.
Esta questão assume particular importância quando a avaliação da aprendizagem depende predominantemente da produção escrita. Se não forem consideradas as características individuais do aluno, uma dificuldade de expressão escrita poderá ser confundida com falta de conhecimento ou compreensão.
Ciasca (2003) salienta a importância de compreender as especificidades das dificuldades de aprendizagem, evitando generalizações sobre o desempenho global do aluno. A partir dessa perspectiva, torna-se necessário distinguir a capacidade de compreender determinado conteúdo da capacidade de o expressar através da escrita.
As dificuldades podem ainda repercutir-se na participação do aluno. A experiência repetida de insucesso perante actividades escritas pode levar à redução da participação, à resistência perante determinadas tarefas ou à dependência de apoio constante. Por essa razão, a intervenção pedagógica deve procurar criar condições para que o aluno participe activamente no processo de aprendizagem.
2.6. O papel do professor perante as dificuldades de escrita
O professor desempenha um papel central na identificação e no acompanhamento das dificuldades de escrita. A sua proximidade com os alunos permite observar o comportamento durante as actividades, identificar padrões de dificuldade e acompanhar as mudanças que ocorrem ao longo do processo educativo.
A intervenção do professor não deve limitar-se à correcção dos erros. É necessário compreender a natureza das dificuldades apresentadas e seleccionar estratégias adequadas às necessidades de cada aluno.
Oliveira (2014) destaca a importância do trabalho pedagógico diante das dificuldades relacionadas com a escrita, salientando a necessidade de estratégias que contribuam para o desenvolvimento das competências do aluno.
Entre as estratégias que podem ser utilizadas encontram-se o acompanhamento individual, a orientação durante a realização das tarefas, a realização de exercícios específicos, a adaptação das actividades e, quando pedagogicamente adequado, a concessão de maior tempo para a sua realização.
A diferenciação pedagógica assume, neste sentido, particular relevância. Nem todos os alunos aprendem ou demonstram aquilo que aprenderam da mesma forma e ao mesmo ritmo. O professor deve, por isso, procurar diversificar as formas de intervenção, sem reduzir as expectativas em relação às possibilidades de aprendizagem do aluno.
2.7. Intervenção pedagógica e inclusão escolar
O acompanhamento dos alunos com dificuldades de escrita deve enquadrar-se numa perspectiva de educação inclusiva. A inclusão implica criar condições para que todos os alunos possam participar no processo educativo, considerando as suas características e necessidades.
A intervenção pedagógica deve evitar práticas que exponham ou desvalorizem o aluno perante os colegas. Pelo contrário, deve proporcionar oportunidades de aprendizagem, acompanhamento e desenvolvimento das competências necessárias.
Neste sentido, o professor pode recorrer a actividades graduadas, exercícios de escrita adequados ao nível de desenvolvimento do aluno, acompanhamento individual e diferentes formas de apresentação e avaliação dos conhecimentos, sempre que pedagogicamente justificadas.
A intervenção deve também ser acompanhada pela observação sistemática dos progressos. O professor precisa de verificar se as estratégias utilizadas estão a produzir mudanças positivas e, quando necessário, ajustá-las às necessidades identificadas.
Assim, o acompanhamento das dificuldades de escrita não deve ser entendido apenas como uma acção de correcção, mas como um processo contínuo de apoio ao desenvolvimento do aluno.
A literatura analisada permite compreender que a escrita constitui uma competência essencial no processo educativo e que as dificuldades relacionadas com a sua produção podem assumir diferentes formas e repercussões.
A disgrafia, enquanto problemática associada à produção escrita, pode manifestar-se através de dificuldades relacionadas com a legibilidade, organização gráfica, ritmo e realização das actividades. No contexto escolar, essas manifestações podem interferir na realização das tarefas e na forma como o aluno demonstra os conhecimentos adquiridos.
Entretanto, uma dificuldade na escrita não deve ser automaticamente interpretada como incapacidade global de aprendizagem. A compreensão do aluno deve ser analisada de forma ampla, considerando as suas potencialidades e as condições em que a aprendizagem ocorre.
Neste quadro, o professor assume papel fundamental, uma vez que a observação, o acompanhamento individual, a diferenciação pedagógica e a adaptação das actividades podem contribuir para uma participação mais efectiva dos alunos no processo de ensino e aprendizagem.
3.Metodologia
3.1. Abordagem e tipo de investigação
O presente estudo adoptou uma abordagem qualitativa, de carácter descritivo e interpretativo, por se considerar adequada à compreensão das experiências, dificuldades e percepções relacionadas com a escrita no contexto escolar. A investigação qualitativa permite analisar os fenómenos educativos a partir das experiências dos participantes e das características do contexto em que ocorrem, privilegiando a interpretação dos significados atribuídos às situações observadas.
A opção por esta abordagem justifica-se pelo facto de o estudo procurar compreender as interferências das dificuldades relacionadas com a escrita no processo de ensino e aprendizagem, considerando não apenas as manifestações observáveis durante a realização das actividades escolares, mas também a percepção dos professores e as formas de intervenção pedagógica utilizadas.
O estudo assumiu, igualmente, um carácter descritivo, na medida em que procurou descrever as principais dificuldades de escrita observadas entre os alunos, e interpretativo, por procurar compreender de que modo essas dificuldades se repercutem na realização das actividades escolares e na participação dos alunos no processo de ensino e aprendizagem.
3.2. Contexto e participantes do estudo
A investigação foi realizada no Complexo Escolar Católico n.º 3064 São Francisco de Assis, situado no Município do Hoji-Ya-Henda, Província de Luanda, Angola, durante o ano lectivo de 2025–2026.
Participaram no estudo 10 alunos da 5.ª classe e 2 professores que acompanhavam directamente o processo de ensino e aprendizagem da turma seleccionada. A escolha dos participantes foi realizada de forma intencional, considerando a sua relação directa com o fenómeno investigado.
Os alunos constituíram a principal fonte de observação das manifestações relacionadas com as dificuldades de escrita, enquanto os professores contribuíram com informações relativas às dificuldades identificadas no quotidiano escolar, às suas repercussões nas actividades pedagógicas e às estratégias utilizadas para apoiar os alunos.
Importa salientar que a investigação não teve como finalidade estabelecer um diagnóstico clínico de disgrafia. Assim, as manifestações observadas foram analisadas no âmbito das dificuldades relacionadas com a escrita, tomando a disgrafia como categoria conceptual central do estudo. O diagnóstico de uma perturbação específica da aprendizagem exige avaliação especializada e não pode ser estabelecido exclusivamente a partir da observação de actividades escolares.
3.3. Técnicas e instrumentos de recolha de dados
Para a recolha dos dados foram utilizadas três técnicas principais: entrevista semiestruturada, observação e análise documental das produções escritas dos alunos.
A entrevista semiestruturada foi dirigida aos dois professores participantes, com o propósito de conhecer as suas percepções sobre as dificuldades de escrita apresentadas pelos alunos, as principais interferências dessas dificuldades no processo de ensino e aprendizagem e as estratégias pedagógicas adoptadas para apoiar os alunos.
A observação incidiu sobre a realização de actividades de escrita em contexto de sala de aula. Foram considerados aspectos como o ritmo de execução das tarefas, a organização gráfica da escrita, a legibilidade, o espaçamento entre palavras, a cópia de conteúdos do quadro, a organização das letras e a necessidade de apoio individual durante as actividades.
Foi também realizada a análise das produções escritas dos alunos, considerando exercícios e trabalhos realizados no contexto escolar. Esta técnica permitiu complementar os dados obtidos através da observação e das entrevistas, possibilitando uma análise mais consistente das dificuldades manifestadas pelos participantes.
Os instrumentos utilizados foram um guião de entrevista semiestruturada, uma grelha de observação e uma ficha de análise das produções escritas. A utilização de diferentes fontes de informação permitiu realizar a triangulação dos dados, procurando aumentar a consistência da interpretação dos resultados.
3.4. Procedimentos de recolha de dados
A recolha de dados decorreu no contexto habitual das actividades escolares, procurando preservar as condições naturais em que os alunos realizavam as tarefas de escrita.
Numa primeira fase, procedeu-se à observação das actividades desenvolvidas pelos alunos, com registo das principais manifestações relacionadas com a escrita. Posteriormente, foram analisadas produções escritas realizadas pelos participantes, tendo em atenção os aspectos previamente definidos na grelha de análise.
Numa fase subsequente, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com os professores, procurando aprofundar as informações obtidas durante a observação. As entrevistas permitiram compreender como os docentes interpretavam as dificuldades observadas e quais as estratégias pedagógicas utilizadas para responder às necessidades dos alunos.
Os dados provenientes das diferentes técnicas foram posteriormente organizados e confrontados, permitindo identificar convergências e diferenças entre aquilo que foi observado nas actividades, o que estava presente nas produções escritas e o que foi relatado pelos professores.
3.5. Técnica de análise dos dados
Os dados foram analisados através da análise temática, procurando identificar, organizar e interpretar os principais temas emergentes do material recolhido.
Inicialmente, procedeu-se à leitura e organização das informações obtidas através das entrevistas, observações e produções escritas. Em seguida, foram identificadas unidades de significado relacionadas com as dificuldades de escrita, as suas interferências no processo de ensino e aprendizagem e as estratégias de intervenção pedagógica.
A análise permitiu organizar os resultados em categorias temáticas, nomeadamente: (a) principais dificuldades relacionadas com a escrita; (b) interferências das dificuldades de escrita na realização das actividades escolares; (c) percepção dos professores; e (d) estratégias pedagógicas de apoio.
A interpretação dos resultados foi realizada em articulação com a fundamentação teórica apresentada no artigo, permitindo estabelecer relações entre os dados empíricos e os contributos dos autores que abordam as dificuldades de aprendizagem, a escrita e a intervenção pedagógica.
Embora algumas informações possam ser apresentadas sob a forma de frequências descritivas, estas foram utilizadas apenas como recurso complementar à interpretação qualitativa dos dados. O estudo mantém, portanto, uma orientação essencialmente qualitativa, centrada na compreensão do fenómeno no contexto escolar investigado.
3.6. Considerações éticas
No desenvolvimento da investigação foram considerados princípios éticos fundamentais para estudos realizados em contexto escolar, particularmente por envolverem alunos menores de idade. Foi preservada a identidade dos participantes e evitada a utilização de informações que permitissem a sua identificação individual.
A participação dos professores e a recolha de informações sobre os alunos foram realizadas no âmbito institucional e com respeito pelos princípios de confidencialidade, privacidade e respeito pelos participantes. Os dados recolhidos foram utilizados exclusivamente para fins académicos e científicos.
Na apresentação dos resultados, os participantes não são identificados nominalmente, sendo utilizadas designações gerais, como Professor 1 (P1), Professor 2 (P2) e Aluno (A), sempre que necessário para distinguir as fontes de informação.
Deste modo, a metodologia adoptada procurou garantir coerência entre o problema de investigação, os objectivos definidos, as técnicas de recolha de dados e a análise interpretativa das informações obtidas.
4.Resultados e Discussão
A análise dos dados recolhidos através das entrevistas aos professores, da observação das actividades de escrita e da análise das produções escritas dos alunos permitiu identificar quatro categorias temáticas principais: (a) dificuldades relacionadas com a escrita; (b) interferências das dificuldades de escrita na realização das actividades escolares; (c) percepção dos professores; e (d) estratégias pedagógicas utilizadas para apoiar os alunos.
A apresentação dos resultados é acompanhada da respectiva discussão, estabelecendo-se uma relação entre os dados obtidos no contexto escolar e os contributos apresentados na fundamentação teórica.
4.1. Dificuldades relacionadas com a escrita
A observação das actividades e a análise das produções escritas permitiram identificar diferentes manifestações relacionadas com a escrita. Entre as situações mais evidentes destacaram-se a lentidão na realização das tarefas, a irregularidade no tamanho das letras, a reduzida legibilidade, dificuldades no espaçamento entre palavras e dificuldades na cópia de conteúdos apresentados no quadro.
A lentidão na realização das actividades constituiu uma das manifestações mais frequentes entre os alunos observados. Alguns necessitavam de mais tempo para concluir tarefas que os restantes colegas realizavam num período mais reduzido. Também foram observadas dificuldades relacionadas com a organização espacial da escrita, nomeadamente no tamanho irregular das letras e no espaçamento entre palavras.
A reduzida legibilidade constituiu igualmente uma dificuldade relevante, uma vez que, em determinadas produções, a leitura do conteúdo escrito exigia maior atenção por parte do professor. Verificaram-se ainda dificuldades durante a cópia de conteúdos do quadro, situação que condicionava o ritmo de realização das actividades.
Estes resultados aproximam-se da perspectiva apresentada por Almeida et al. (2010), segundo a qual as dificuldades relacionadas com a escrita podem manifestar-se através de problemas na organização gráfica, na legibilidade e na execução das tarefas escritas. Do mesmo modo, Ciasca (2003) salienta que as dificuldades de aprendizagem podem interferir no desempenho escolar quando determinadas competências necessárias à realização das actividades não se encontram suficientemente desenvolvidas.
Contudo, as manifestações observadas não devem ser interpretadas isoladamente como confirmação de um diagnóstico clínico de disgrafia. A presença de dificuldades na escrita pode resultar de diferentes factores, sendo necessária uma avaliação especializada para estabelecer um diagnóstico. Neste estudo, tais manifestações foram consideradas enquanto dificuldades observáveis no contexto escolar.
4.2. Interferências das dificuldades de escrita na realização das actividades escolares
Os dados recolhidos evidenciaram que as dificuldades relacionadas com a escrita interferiam sobretudo no tempo de realização das actividades, na cópia de conteúdos, na expressão escrita e na participação em determinadas tarefas escolares.
Durante a observação, verificou-se que alguns alunos necessitavam de mais tempo para terminar os exercícios. Esta situação podia levar à acumulação de tarefas ou à conclusão incompleta das actividades propostas. A dificuldade de acompanhar o ritmo de cópia do quadro também se revelou significativa, sobretudo quando os conteúdos eram extensos.
Outra interferência observada relacionou-se com a capacidade de expressar por escrito conhecimentos que os alunos demonstravam compreender oralmente. Em algumas situações, a dificuldade na produção escrita parecia limitar a apresentação do conhecimento adquirido, criando uma diferença entre aquilo que o aluno conseguia comunicar oralmente e aquilo que conseguia registar por escrito.
Também foram observados momentos de resistência ou menor disponibilidade para determinadas tarefas de escrita. Esta situação pode estar associada ao esforço acrescido exigido pela realização das actividades, embora não seja possível estabelecer, apenas com base na observação, uma relação causal directa entre as dificuldades de escrita e a resistência às tarefas.
Os resultados encontram correspondência com José e Coelho (2000), que consideram que as dificuldades de aprendizagem podem repercutir-se no desempenho escolar e na realização das tarefas, sobretudo quando o aluno encontra obstáculos persistentes na execução de determinadas actividades. Nesta perspectiva, a dificuldade não deve ser analisada apenas como uma característica individual do aluno, mas também em função das exigências da actividade e das condições pedagógicas oferecidas.
Assim, os resultados sugerem a necessidade de práticas pedagógicas que permitam ao aluno demonstrar os conhecimentos adquiridos sem que as dificuldades relacionadas com a escrita constituam, por si só, uma barreira à sua participação no processo de ensino e aprendizagem.
4.3. Percepção dos professores sobre as dificuldades de escrita
As entrevistas realizadas com os dois professores revelaram uma percepção convergente quanto à existência de dificuldades significativas relacionadas com a escrita entre alguns alunos.
Os professores referiram, de forma geral, dificuldades relacionadas com a lentidão na execução das tarefas, a cópia do quadro, a organização da escrita e a necessidade de acompanhamento individual. Ambos reconheceram que tais dificuldades podem interferir no desenvolvimento normal das actividades escolares, sobretudo quando as tarefas dependem predominantemente da produção escrita.
Outro aspecto destacado pelos docentes foi a necessidade de adaptar determinadas actividades às características e ao ritmo de aprendizagem dos alunos. Na perspectiva dos professores, o acompanhamento individual permite compreender melhor as dificuldades apresentadas e proporcionar orientações mais adequadas.
Esta percepção encontra suporte na literatura apresentada por Ciasca (2003), ao destacar a importância de compreender as dificuldades de aprendizagem no contexto do desenvolvimento escolar do aluno. Do mesmo modo, Oliveira (2014) chama a atenção para a necessidade de uma intervenção pedagógica adequada perante dificuldades relacionadas com a escrita.
A percepção dos professores revela, portanto, que a resposta às dificuldades de escrita não deve limitar-se à repetição dos exercícios. É necessário considerar estratégias diferenciadas, acompanhamento contínuo e condições que permitam ao aluno desenvolver progressivamente as suas competências.
4.4. Estratégias pedagógicas utilizadas pelos professores
A análise das entrevistas permitiu identificar diversas estratégias utilizadas pelos professores para apoiar os alunos. Entre as principais destacaram-se o acompanhamento individual, exercícios específicos de escrita, orientação individualizada, concessão de tempo adicional e realização de actividades diferenciadas.
O acompanhamento individual foi referido como uma estratégia importante, sobretudo nos momentos em que o aluno demonstrava dificuldade em compreender ou executar determinada tarefa. A orientação individual permitia ao professor acompanhar mais directamente o processo de realização da actividade e fornecer explicações ajustadas às necessidades observadas.
Os professores referiram igualmente a utilização de exercícios específicos de escrita como forma de promover a prática e o aperfeiçoamento das competências. A concessão de tempo adicional foi outra estratégia mencionada, particularmente nos casos em que a lentidão na escrita dificultava a conclusão das actividades dentro do tempo inicialmente previsto.
Foram ainda identificadas actividades diferenciadas, procurando adequar o nível de exigência e a forma de apresentação das tarefas às necessidades dos alunos. Em algumas situações, foram utilizadas actividades relacionadas com a coordenação motora, como complemento ao trabalho de escrita.
Estas estratégias estão de acordo com uma perspectiva de intervenção pedagógica diferenciada, segundo a qual o professor deve ajustar as práticas às características e necessidades dos alunos. Almeida et al. (2010) destacam a importância de intervenções específicas perante dificuldades relacionadas com a escrita, enquanto Oliveira (2014) enfatiza o papel da prática pedagógica na criação de condições favoráveis ao desenvolvimento da escrita.
A utilização dessas estratégias demonstra que a intervenção pedagógica pode desempenhar um papel relevante na redução das barreiras encontradas pelos alunos. Todavia, a sua eficácia depende da continuidade do acompanhamento, da adequação das actividades e, quando necessário, da articulação entre a escola, a família e profissionais especializados.
4.5. Síntese dos principais resultados
A análise integrada dos dados permitiu compreender que as dificuldades relacionadas com a escrita constituem um factor que pode interferir em diferentes dimensões do processo de ensino e aprendizagem.
As principais manifestações observadas estiveram relacionadas com a lentidão da escrita, legibilidade, organização gráfica, espaçamento, cópia e realização das tarefas no tempo previsto. Essas dificuldades repercutiram-se principalmente na execução das actividades, na expressão escrita dos conhecimentos e na necessidade de acompanhamento individual.
A percepção dos professores confirmou a relevância dessas dificuldades no quotidiano escolar e evidenciou a utilização de estratégias pedagógicas diferenciadas. Entre estas destacaram-se o acompanhamento individual, a orientação personalizada, os exercícios específicos, a concessão de tempo adicional e a adaptação das actividades.
Os resultados permitem, assim, responder ao problema de investigação, indicando que as dificuldades relacionadas com a escrita podem constituir uma barreira à realização plena das actividades escolares quando não são acompanhadas por estratégias pedagógicas adequadas. Ao mesmo tempo, os dados reforçam a importância de uma abordagem educativa inclusiva, centrada nas necessidades dos alunos e na criação de condições que favoreçam a sua participação e aprendizagem.
4.Conclusão
A análise dos dados recolhidos através das entrevistas aos professores, da observação das actividades de escrita e da análise das produções escritas dos alunos permitiu identificar quatro categorias temáticas principais: (a) dificuldades relacionadas com a escrita; (b) interferências das dificuldades de escrita na realização das actividades escolares; (c) percepção dos professores; e (d) estratégias pedagógicas utilizadas para apoiar os alunos.
A apresentação dos resultados é acompanhada da respectiva discussão, estabelecendo-se uma relação entre os dados obtidos no contexto escolar e os contributos apresentados na fundamentação teórica.
4.1. Dificuldades relacionadas com a escrita
A observação das actividades e a análise das produções escritas permitiram identificar diferentes manifestações relacionadas com a escrita. Entre as situações mais evidentes destacaram-se a lentidão na realização das tarefas, a irregularidade no tamanho das letras, a reduzida legibilidade, dificuldades no espaçamento entre palavras e dificuldades na cópia de conteúdos apresentados no quadro.
A lentidão na realização das actividades constituiu uma das manifestações mais frequentes entre os alunos observados. Alguns necessitavam de mais tempo para concluir tarefas que os restantes colegas realizavam num período mais reduzido. Também foram observadas dificuldades relacionadas com a organização espacial da escrita, nomeadamente no tamanho irregular das letras e no espaçamento entre palavras.
A reduzida legibilidade constituiu igualmente uma dificuldade relevante, uma vez que, em determinadas produções, a leitura do conteúdo escrito exigia maior atenção por parte do professor. Verificaram-se ainda dificuldades durante a cópia de conteúdos do quadro, situação que condicionava o ritmo de realização das actividades.
Estes resultados aproximam-se da perspectiva apresentada por Almeida et al. (2010), segundo a qual as dificuldades relacionadas com a escrita podem manifestar-se através de problemas na organização gráfica, na legibilidade e na execução das tarefas. Do mesmo modo, Ciasca (2003) salienta que as dificuldades de aprendizagem podem interferir no desempenho escolar quando determinadas competências necessárias à realização das actividades não se encontram suficientemente desenvolvidas.
Contudo, as manifestações observadas não devem ser interpretadas isoladamente como confirmação de um diagnóstico clínico de disgrafia. A presença de dificuldades na escrita pode resultar de diferentes factores, sendo necessária uma avaliação especializada para estabelecer um diagnóstico. Neste estudo, tais manifestações foram consideradas enquanto dificuldades observáveis no contexto escolar.
4.2. Interferências das dificuldades de escrita na realização das actividades escolares
Os dados recolhidos evidenciaram que as dificuldades relacionadas com a escrita interferiam sobretudo no tempo de realização das actividades, na cópia de conteúdos, na expressão escrita e na participação em determinadas tarefas escolares.
Durante a observação, verificou-se que alguns alunos necessitavam de mais tempo para terminar os exercícios. Esta situação podia levar à acumulação de tarefas ou à conclusão incompleta das actividades propostas. A dificuldade de acompanhar o ritmo de cópia do quadro também se revelou significativa, sobretudo quando os conteúdos eram extensos.
Outra interferência observada relacionou-se com a capacidade de expressar por escrito conhecimentos que os alunos demonstravam compreender oralmente. Em algumas situações, a dificuldade na produção escrita parecia limitar a apresentação do conhecimento adquirido, criando uma diferença entre aquilo que o aluno conseguia comunicar oralmente e aquilo que conseguia registar por escrito.
Também foram observados momentos de resistência ou menor disponibilidade para determinadas tarefas de escrita. Esta situação pode estar associada ao esforço acrescido exigido pela realização das actividades, embora não seja possível estabelecer, apenas com base na observação, uma relação causal directa entre as dificuldades de escrita e a resistência às tarefas.
Os resultados encontram correspondência com José e Coelho (2000), que consideram que as dificuldades de aprendizagem podem repercutir-se no desempenho escolar e na realização das tarefas, sobretudo quando o aluno encontra obstáculos persistentes na execução de determinadas actividades.
Assim, os resultados sugerem a necessidade de práticas pedagógicas que permitam ao aluno demonstrar os conhecimentos adquiridos sem que as dificuldades relacionadas com a escrita constituam, por si só, uma barreira à sua participação no processo de ensino e aprendizagem.
4.3. Percepção dos professores sobre as dificuldades de escrita
As entrevistas realizadas com os dois professores revelaram uma percepção convergente quanto à existência de dificuldades significativas relacionadas com a escrita entre alguns alunos.
O Professor 1 (P1) referiu que as dificuldades se manifestavam principalmente na lentidão da escrita, na cópia do quadro e na organização das letras. Na sua percepção, alguns alunos compreendiam oralmente os conteúdos trabalhados, mas apresentavam maior dificuldade quando tinham de os registar por escrito.
O Professor 2 (P2) apresentou uma percepção semelhante, destacando a dificuldade de alguns alunos em acompanhar o ritmo das actividades escritas e a necessidade de acompanhamento individual. Segundo o docente, a dificuldade na escrita podia fazer com que determinados alunos terminassem as tarefas depois dos colegas ou necessitassem de orientação adicional.
A convergência das percepções dos dois professores é relevante porque permite confrontar as informações obtidas através das entrevistas com aquilo que foi observado directamente durante as actividades escolares. Deste modo, a entrevista não foi analisada isoladamente, mas articulada com as demais fontes de informação.
A percepção dos docentes encontra suporte em Ciasca (2003), ao destacar a importância de compreender as dificuldades de aprendizagem no contexto do desenvolvimento escolar do aluno. Do mesmo modo, Oliveira (2014) chama a atenção para a necessidade de uma intervenção pedagógica adequada perante dificuldades relacionadas com a escrita.
Os depoimentos dos professores permitem compreender que as dificuldades relacionadas com a escrita não se restringem à dimensão gráfica. Quando persistentes, podem influenciar o ritmo de realização das actividades, a participação do aluno e a forma como este demonstra os conhecimentos adquiridos.
4.4. Interferências observadas no desempenho escolar
Quando questionados sobre as principais interferências das dificuldades de escrita no processo de ensino e aprendizagem, os dois professores destacaram a dificuldade em concluir determinadas actividades dentro do tempo previsto.
O P1 salientou a necessidade de conceder mais tempo aos alunos que apresentam maior lentidão na escrita, sobretudo durante actividades de cópia e exercícios escritos. Já o P2 destacou que a dificuldade em escrever pode fazer com que alguns alunos necessitem de apoio adicional para concluir tarefas que, em condições diferentes, poderiam realizar com maior autonomia.
Estas percepções são coerentes com os dados obtidos através da observação. Entre as manifestações identificadas encontraram-se dificuldades na conclusão das actividades no tempo previsto, na cópia do quadro e na expressão escrita dos conhecimentos.
A relação entre os dados das entrevistas e os dados da observação reforça a interpretação de que as dificuldades de escrita podem constituir uma barreira à participação plena dos alunos nas actividades escolares. No entanto, esta interferência deve ser compreendida de forma contextualizada, considerando as características das tarefas, o ritmo individual de aprendizagem e as estratégias utilizadas pelo professor.
José e Coelho (2000) defendem que as dificuldades de aprendizagem podem afectar a realização das actividades escolares quando o aluno não dispõe das condições necessárias para responder às exigências das tarefas. Neste sentido, a resposta pedagógica assume particular importância.
4.5. Estratégias pedagógicas utilizadas pelos professores
A análise das entrevistas permitiu identificar diversas estratégias utilizadas pelos professores para apoiar os alunos. Entre as principais destacaram-se o acompanhamento individual, exercícios específicos de escrita, orientação individualizada, concessão de tempo adicional e realização de actividades diferenciadas.
O P1 referiu a utilização de acompanhamento individual durante determinadas actividades, explicando novamente as orientações sempre que o aluno demonstrava dificuldade em acompanhar a tarefa. O docente destacou também a utilização de exercícios de escrita para proporcionar maior prática.
Por sua vez, o P2 salientou a importância de conceder tempo adicional e adaptar determinadas actividades ao ritmo dos alunos. O professor referiu ainda que a orientação individual permite identificar com maior facilidade os aspectos em que cada aluno apresenta maior dificuldade.
As estratégias identificadas demonstram uma preocupação dos docentes em responder às necessidades diferenciadas dos alunos. A intervenção não se limita, portanto, à identificação das dificuldades, procurando criar condições para que os alunos possam continuar a participar nas actividades pedagógicas.
Almeida et al. (2010) destacam a importância de intervenções específicas perante dificuldades relacionadas com a escrita, enquanto Oliveira (2014) enfatiza o papel da prática pedagógica na criação de condições favoráveis ao desenvolvimento da escrita.
A utilização de estratégias diferenciadas também se aproxima dos princípios de uma educação inclusiva, na medida em que procura reduzir barreiras à participação e à aprendizagem. Contudo, a intervenção pedagógica deve ser acompanhada e ajustada continuamente, considerando a evolução de cada aluno.
4.6. Triangulação dos resultados
A triangulação entre observação, entrevistas e análise das produções escritas permitiu identificar convergências importantes.
A observação revelou dificuldades relacionadas com a lentidão, a legibilidade, a organização gráfica, o espaçamento, a cópia e a conclusão das tarefas. As entrevistas com os professores confirmaram a presença dessas dificuldades e acrescentaram informações sobre as suas repercussões no quotidiano escolar.
Por sua vez, a análise das produções escritas permitiu observar concretamente algumas das características identificadas durante as actividades, contribuindo para uma compreensão mais ampla do fenómeno estudado.
A convergência entre as diferentes fontes de informação constitui um elemento importante para a interpretação qualitativa dos resultados. Em vez de considerar uma única fonte como suficiente, o estudo procurou confrontar diferentes perspectivas sobre o mesmo fenómeno.
4.7. Síntese dos principais resultados
Os resultados permitem compreender que as dificuldades relacionadas com a escrita podem interferir em diferentes dimensões do processo de ensino e aprendizagem dos alunos da 5.ª classe estudados.
As principais manifestações identificadas estiveram relacionadas com a lentidão da escrita, legibilidade, organização gráfica, espaçamento, cópia e realização das tarefas no tempo previsto. Essas dificuldades repercutiram-se principalmente na execução das actividades, na expressão escrita dos conhecimentos e na necessidade de acompanhamento individual.
As percepções dos dois professores foram convergentes quanto à existência dessas dificuldades e às suas repercussões no processo escolar. Ambos reconheceram a necessidade de adoptar estratégias pedagógicas diferenciadas, destacando o acompanhamento individual, a orientação personalizada, os exercícios específicos, a concessão de tempo adicional e a adaptação das actividades.
Deste modo, os resultados sugerem que a intervenção pedagógica constitui um elemento importante para reduzir as barreiras encontradas pelos alunos durante as actividades de escrita. A resposta educativa deve, por isso, considerar o ritmo e as necessidades individuais dos alunos, evitando que as dificuldades relacionadas com a escrita sejam interpretadas apenas como limitações do aluno.
Importa reiterar que os resultados deste estudo descrevem dificuldades observadas no contexto escolar e não constituem, por si só, evidência suficiente para estabelecer um diagnóstico clínico de disgrafia. Esta distinção é fundamental para uma interpretação cientificamente responsável dos resultados.
Referências
Almeida, A., Almeida, M., & Almeida, M. (2010). Manual para tratamento de disgrafia: Disortografia e troca de letras. Biblioteca 24 horas.
Ciasca, S. M. (2003). Distúrbios específicos de aprendizagem. Casa do Psicólogo.
José, E. A., & Coelho, M. T. (2000). Problemas de aprendizagem (12.ª ed.). Ática.
Oliveira, C. S. (2014). O trabalho pedagógico frente à disgrafia no ensino fundamental.
Comentários (0)
Entre para deixar um comentário.
Artigos relacionados
ANÁLISE DO COMPORTAMENTO DA CRIANÇA EM SALA DE AULA E SUA IMPLICAÇÃO NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM
A análise do comportamento da criança em sala de aula é de grande importância no processo ensino-aprendizagem, pois com ela, podem-se ver resultados de forma objectiva. A utilização de acções contingenciais adequados traz resultados bastante eficientes. A base para toda e qualquer aprendizagem é a experimentação e para cada processo de aprendizagem existem contingências específicas favoráveis, cujo objecto epistemológico de análise, é o comportamento manifestado dentro e fora da sala de aula. Para o alcance dos resultados da pesquisa, o trabalho seguiu uma revisão bibliográfica com recurso a abordagem descritivo enquadrado no paradigma compreensivo- positivista, com enfoque epistemológico qualitativo e, com técnicas de análise documental e descrições através de narrações.Sendo assim, a pesquisa irá contribuir para o processo de ensino-aprendizagem no contexto educacional.Portanto, o presente estudo visa esclarecer como se dá o processo de ensino-aprendizagem na educação segundo os preceitos da teoria comportamental de Skinner, e com isso, compreender os benefícios desta teoria para um melhor conhecimento da mesma.Em suma, acredita-se que este trabalho, possa ampliar a visão dos leitores referente à análise do comportamento para o incentivo de novas pesquisas, não só no contexto da educação como em outros meios de intervenções.
10 de set. de 2026
INCLUSÃO EDUCACIONAL NO ENSINO SUPERIOR ANGOLANO: FUNDAMENTOS SOCIAIS, ÉTICOS E ANTROPOLÓGICOS
RESUMO O presente artigo científico tem como objectivo analisar os fundamentos sociais, éticos e antropológicos da inclusão educacional no ensino superior angolano, procurando compreender de que forma estas dimensões se articulam na construção de um sistema universitário mais justo, equitativo e respeitador da diversidade humana. Partindo de uma revisão bibliográfica de natureza qualitativa, exploratória e descritiva, o estudo discute o conceito de inclusão educacional, os princípios éticos que a fundamentam, a sua dimensão antropológica enquanto reconhecimento da dignidade e diversidade humanas, bem como os desafios estruturais, culturais e institucionais enfrentados pelas universidades angolanas na promoção do acesso e da permanência de estudantes com necessidades educativas especiais, oriundos de contextos socioeconómicos vulneráveis ou pertencentes a grupos historicamente marginalizados. Os resultados da análise evidenciam que, apesar dos progressos legislativos e das políticas públicas implementadas nas últimas décadas, persistem barreiras significativas de natureza física, atitudinal, pedagógica e financeira que comprometem a efectivação plena da inclusão no contexto universitário angolano. Conclui-se que a construção de uma educação superior verdadeiramente inclusiva exige um compromisso ético-antropológico continuado, que reconheça a alteridade e a diversidade como valores estruturantes do processo educativo, bem como investimentos institucionais consistentes na formação de docentes, na adequação de infraestruturas e na revisão de práticas pedagógicas e curriculares.
19 de set. de 2026
EducaçãoMENTORIA PARALELA ESTRUTURADA POR PONTOS DE VALIDAÇÃO NA PRODUÇÃO DO TRABALHO DE FIM DE CURSO EM ENGENHARIA INFORMÁTICA: ESTUDO DE CASO MÚLTIPLO EXPLORATÓRIO EM LUANDA
O trabalho de fim de curso (TFC) em Engenharia Informática exige a entrega simultânea de um artefacto técnico e de uma monografia científica, o que coloca o finalista perante duas exigências de natureza distinta. Este estudo analisa um dispositivo de mentoria paralela, externo à orientação institucional e organizado por pontos de validação obrigatórios, com o objectivo de identificar onde se concentram os bloqueios do processo e que falhas de integridade o dispositivo detecta. O enquadramento teórico articula os conceitos de andaimagem, autorregulação da aprendizagem e integridade da investigação. Adoptou-se um estudo de caso múltiplo exploratório, com análise documental dos registos de validação de três processos de TFC em duas instituições de ensino superior de Luanda. Os resultados preliminares indicam que os bloqueios se concentram nas etapas que exigem evidência produzida pelo próprio estudante, como dados de campo, simulação e medição em produção; que a confirmação de fontes bibliográficas é uma pendência recorrente; que artefacto e documento evoluem de forma desacoplada; e que nenhum estudante dispunha do instrumento institucional de avaliação. Conclui-se que a fronteira entre apoio e substituição autoral deve ser definida operacionalmente e que a divulgação precoce dos critérios de avaliação é condição de qualidade do TFC.
22 de set. de 2026